Estoicismo para iniciantes – Como a filosofia estoica pode transformar a vida hoje

Por Lucilea Martins

A primeira lição – Autoconhecimento

Eu demorei para perceber que grande parte do meu sofrimento não vinha exatamente dos problemas que aconteciam comigo, mas da maneira como eu reagia a eles. Durante muito tempo, eu me preocupava com coisas que ainda nem tinham acontecido, revivi situações que já tinham passado e gastava uma enorme energia tentando controlar pessoas, circunstâncias e resultados que nunca estiveram realmente nas minhas mãos. Bastava alguém falar rigorosamente, um plano sair fora do esperado ou alguma coisa acontecer para meu equilíbrio se perder. Sem perceber, eu entregava minha paz para acontecimentos sobre os quais não tinha poder algum.

Quando comecei a ler sobre estoicismo, encontrei uma filosofia muito diferente de textos literários filosóficos abstratos, complexos e distantes da realidade. Através do avanço na leitura encontrei maneiras de compreender minhas emoções, questionar meus pensamentos e escolher com a forma como respondo ao que acontece. Pela primeira vez, algumas situações que antes pareciam enormes começaram a se revelar com outras proporções. Eu percebi que não precisava controlar tudo para viver com mais tranquilidade.

Dicotomia do controle: o que está realmente nas minhas mãos?

Entre tantas ideias do estoicismo, uma pergunta se tornou especialmente importante para mim: “Isso está sob o meu controle?”

Parece simples, mas essa pergunta pode interromper ciclos de ansiedade, frustração e sofrimento. Posso controlar minhas escolhas, minhas atitudes, minhas palavras e a maneira como decido responder a uma situação. Não posso controlar completamente a opinião de alguém, o comportamento das outras pessoas, o passado, o acaso ou o resultado final de todas as minhas tentativas.

O que está sob meu controle?

Essa é a essência da chamada dicotomia do controle, um dos princípios fundamentais da filosofia estoica.

E quanto mais comecei a entender e a praticar, ao poucos fui percebendo que tranquilidade tem a ver com aprender a não entregar minha paz a tudo aquilo que acontece fora de mim.

Queremos controlar o que os outros pensam, antecipar o que vai acontecer, evitar qualquer desconforto e garantir que nossos planos deem certo. Mas a vida continua escapando de nossas previsões.

A filosofia estoica propõe uma distinção fundamental entre aquilo que depende de mim e aquilo que não depende. E foi justamente essa separação que começou a mudar minha maneira de interpretar os acontecimentos.

Eu não controlo o clima, a opinião de outra pessoa, uma decisão tomada por alguém, o passado ou os acontecimentos inesperados que aparecem no meio do caminho. Também não consigo garantir que uma pessoa goste de mim, que um projeto dê certo ou que todo esforço seja recompensado da maneira que espero.

Por outro lado, existem coisas que estão diretamente ao meu alcance, minhas escolhas, atitudes, palavras, decisões e, principalmente, a maneira como respondo ao que acontece. Existe ainda uma diferença importante que reflito constantemente, mesmo que minhas ações pareçam sob controle, os resultados nem sempre estão.

Posso me preparar para uma prova, mas não posso garantir a nota. Posso fazer o meu melhor em um trabalho, mas não determinar completamente a reação das outras pessoas. Posso tratar alguém com respeito, mas não obrigá-lo a fazer o mesmo comigo. Essa compreensão muda a pergunta que faço diante dos problemas.

Em vez de pensar apenas “Como faço para conseguir o resultado que quero?”, começo a perguntar: “O que realmente depende de mim nesta situação?”

O estoicismo continua atual

A filosofia estoica continua atual porque as questões humanas, não mudaram tanto quanto supomos.

Com todos os avanços sociais, científicos e tecnológicos do mundo, tudo mudou e se transformou. Nossas vidas, rotinas, a sociedade em si avançou em inúmeras áreas. Hoje temos acesso a possibilidades que os antigos estoicos jamais poderiam imaginar. Ainda assim, continuamos enfrentando dilemas, medos, frustrações, inseguranças, perdas, ansiedades e conflitos.

Talvez seja justamente por isso que o estoicismo continue despertando tanto interesse. Quando comecei a compreender melhor a filosofia estoica, percebi que resgatei ou relembrei de meu eu intrínseco princípios e valores que considero essenciais para lidar com questões e desafios de minha vida.

E o estoicismo propõe algo bem possível. Desenvolver sabedoria para distinguir o que depende de mim daquilo que não depende, coragem para agir quando posso fazer alguma coisa e serenidade para aceitar quando preciso deixar ir. Talvez seja essa transformação que eu estive sempre procurando. Não tentar mudar tudo ao meu redor, mas aprender a responder melhor ao mundo que encontro todos os dias.

E, se eu escolho um preceito para começar a praticar o estoicismo, é este. Eu não controlo tudo o que acontece comigo. Parece uma afirmação simples, quase óbvia. Mas aceitar essa realidade de verdade, principalmente quando algo importante está em jogo, é muito mais difícil do que parece.

Foi aí que comecei a perceber quanto sofrimento nasce da tentativa de controlar o que está fora do meu alcance. Quando coloco toda a minha tranquilidade em um resultado, entrego meu equilíbrio emocional a algo, imprevisível, que pode mudar a qualquer momento.

Se preciso que determinada pessoa pense de uma maneira específica, fico dependente da opinião dela. Se preciso que um plano aconteça exatamente como imaginei, qualquer imprevisto se transforma em uma ameaça. Se acredito que só poderei ficar bem quando determinada situação for resolvida, coloco minha paz em um lugar onde não tenho domínio.

O estoicismo me ensina a fazer o movimento contrário. Sem abandonar objetivos, desistir ou aceitar qualquer coisa passivamente. Ensina a agir quando existe algo que posso fazer e aceitar a realidade quando já fiz tudo o que estava ao meu alcance. Se posso estudar, estudo. Se posso conversar, converso. Se posso corrigir um erro, corrijo. Se posso pedir desculpas, peço. Mas, depois de fazer a minha parte, preciso reconhecer que o restante não depende mais de mim. Essa aceitação em muitos momentos exige compreensão.

Agir sobre o que depende de mim também é uma forma de liberdade

Quanto mais reflito sobre isso, mais percebo que a dicotomia do controle não serve apenas para grandes decisões. Ela pode ser praticada nas pequenas situações do cotidiano.

Posso aplicá-la quando recebo uma crítica, quando alguém demora para responder uma mensagem, quando um plano é cancelado, quando enfrento uma dificuldade no trabalho ou quando começo a imaginar tudo o que pode dar errado no futuro.

Nesses momentos, tento fazer uma pausa e perguntar: – Existe realmente alguma coisa que eu possa fazer agora? Se existe, concentro minha energia nisso. Se não existe, tento não alimentar mentalmente uma batalha que não produzirá nenhuma mudança.

Isso também vale para as emoções. Sentir raiva, medo, tristeza ou frustração faz parte da essência humana. O problema não está necessariamente em sentir, mas em permitir que uma emoção momentânea tome decisões por mim. Quantas discussões poderiam terminar de outra maneira se eu esperasse alguns segundos antes de responder? Quantas preocupações perderiam força se eu separasse o que é possibilidade do que é realidade?

Nem sempre consigo fazer isso. Ainda reajo impulsivamente, ainda me preocupo com coisas que não posso resolver e ainda caio nas mesmas armadilhas. Mas o exercício estoico não exige perfeição. Todos os dias posso perceber, corrigir e tentar novamente. E talvez seja justamente nessa repetição silenciosa que a filosofia deixou de ser apenas ideais de sábios de um tempo antigo e começou, de fato, a transformar a maneira como vivo.

Quando tento controlar o que não posso, perco minha paz

No entendimento da filosofia estoica de que não controlo tudo o que acontece comigo, comecei a entender e aceitar que nem tudo depende de mim.

Parece simples. Mas é muito mais difícil do que parece.

O estoicismo propõe uma separação importante entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende. Em contrapartida, dependem de mim a forma como respondo às situações.

Já os resultados nem sempre dependem apenas de mim. Essa compreensão muda muita coisa.

O estoicismo começa justamente nesse ponto. Em vez de gastar energia tentando dominar os acontecimentos, aprendo a direcionar essa energia para aquilo que realmente depende de mim.

E isso não é aceitar tudo com resignação. Pelo contrário. Se alguma coisa pode ser mudada por minhas ações, eu ajo. Se não pode, procuro aceitar a realidade, sem desperdiçar minha paz, lutando mentalmente contra aquilo que não posso alterar.

Refletindo mais profundamente sobre isso, se eu concentro toda a minha tranquilidade no resultado, entrego meu equilíbrio a algo que não controlo. Quando concentro minha atenção na preparação e na qualidade da minha ação, recupero uma parte importante da minha liberdade.

Há uma mudança simples quando me pergunto: – O que está ao meu alcance fazer agora?

Essa pergunta pode ser aplicada ao trabalho, nos relacionamentos, lado financeiro, estudos e até aos momentos mais difíceis e inevitáveis da vida.

Quanto mais tento controlar o que está fora do meu alcance, mais frustrada posso ficar. O estoicismo me oportuniza a reconhecer essa realidade antes que ela precise me ensinar isso através do sofrimento.

Quantas preocupações perdem força quando penso: -Existe realmente algo que eu possa fazer agora?

Essa é uma prática estoica que tento lembrar nos momentos mais difíceis.

Nem sempre consigo. Mas a tentativa já muda alguma coisa.

Não precisei ler dezenas de livros para começar. Comecei com pequenas mudanças em meus pensamentos, um pouco de silencio e respiração consciente, foco no momento presente, exercícios simples que passaram a influenciar minhas escolhas.

Durante o dia, quando surge uma situação difícil, quando algo me perturba, faço uma pausa e pergunto se estou tentando controlar algo que não posso controlar.

Quando alguém me irrita, a tática é pausar por alguns segundos antes de responder. No final do dia, lembro de refletir: “O que fiz bem hoje? Onde reagi de maneira impulsiva?

E assim observo minhas reações. Quando algo acontece, tento perceber o espaço entre o acontecimento e a resposta. Um pequeno intervalo antes da reação. É nesse momento que posso escolher. Nem sempre consigo fazer isso perfeitamente. Mas, aos poucos me torno mais consciente das minhas próprias escolhas.

Uma filosofia para a vida real

Talvez seja isso que mais me chama atenção no estoicismo. Não preciso me isolar do mundo, nem ler textos complexos e abstratos. Continuo tendo que pagar as contas, viver os problemas do cotidiano, enfrentar desentendimentos e momentos difíceis. Tenho desejos, sonhos e faço planos. Ao não transformar tudo isso em uma exigência absoluta, suavizo a auto-cobrança.

Posso trabalhar por um resultado sem acreditar que minha felicidade depende exclusivamente dele. E amar alguém sem acreditar que controlo essa pessoa. Posso planejar o futuro sem esquecer de viver o presente.

A diferença é que, aos poucos, comecei a perceber que nem toda batalha merece minha energia. Nem toda opinião merece minha preocupação. Nem todo pensamento merece ser acreditado.

E nem tudo o que acontece vai determinar quem realmente eu sou.

Compreendo hoje que o estoicismo pode transformar a forma como atravessamos os dias imperfeitos.

Afinal, talvez a grande pergunta do estoicismo seja simples diante daquilo que não posso controlar: – Como escolho viver hoje?

A resposta vem aos poucos, nas pausas antes de reagir, nas pequenas situações que consigo contornar, na preocupação que escolho não manter, no problema que tento enfrentar com mais calma e naquilo que finalmente aceito, solto e deixo ir.

E, na próxima vez que algo acontecer novamente vou me questionar: O que, de fato, depende de mim agora?

Assim, vou aprendendo a não entregar minha estabilidade emocional a cada acontecimento externo.

Quando a vida fugir dos meus planos, quem eu vou escolher ser? Essa resposta não está no futuro. Ela começa nas pequenas decisões que tomo hoje.

Agora quero saber de você, qual situação da sua vida atualmente está consumindo sua energia, mesmo estando fora do seu controle?

Escreva nos comentários. Talvez essa simples pergunta seja o primeiro passo para olhar para esse problema de uma maneira completamente diferente.

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